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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Agualusa conversa com leitores em Setúbal

“Tentei colocar-me no lugar destas pessoas e pensar no que me faria falta no céu" 

O escritor José Eduardo Agualusa revelou em sessão literária realizada em Setúbal no dia 10 à noite que o último livro, o romance “A Vida no Céu”, de 2013, teve origem numa frase que lhe surgiu num sonho. Uma conversa intensa com um escritor de "várias" identidades. Rainha Ginga é o próximo livro do autor. 

O escritor José Eduardo Agualusa esteve "à conversa" em Setúbal 

“O livro começa com ‘depois que o mundo acabou fomos todos para o céu’. Sonhei essa frase inicial e todo o livro se constrói a partir dela”, adiantou o autor angolano no encontro realizado na Casa da Cultura, do ciclo “Muito Cá de Casa”, em que manifestou “alegria por contar com sala cheia”.
O romance “A Vida no Céu”, ponto de partida para esta discussão literária com leitores, promovida pela DDLX em parceria com a Câmara Municipal de Setúbal, é, segundo o próprio Agualusa, “uma parábola ecológica”, uma“reflexão sobre o planeta”, escrito para os dois filhos, de 16 e 9 anos, que“foram dando sugestões”.
Totalmente ficcionada, a obra, sobre a transferência da vida humana para o céu, em cidades flutuantes, devido a um desastre ambiental que tornou impossível a existência na Terra, obrigou o autor a um exercício complexo.
“Tentei colocar-me no lugar destas pessoas e pensar no que me faria falta no céu. O mais divertido foi construir todo esse mundo imaginário”, confidenciou o autor. “Este livro funcionou como um espaço de recreio, depois de outros, como ‘Teoria Geral do Esquecimento’ e ‘Barroco Tropical’, mais sombrios, diria”, disse ainda José Eduardo Agualusa.
A obra, apresentada como “um romance para jovens e outros sonhadores”, tem diversos pontos de interesse que a tornam abrangente em termos de públicos. “O homem que vai para o céu não é tão diferente do homem que habitava Terra”, salientou António Ganhão, escritor e crítico literário, que moderou a sessão em parceria com José Teófilo Duarte, da DDLX, ao aludir que a “ascensão” transportou realidades terrenas – os povos ricos em cidades construídas em cómodos dirigíveis, os outros em aldeias feitas com balões.
O céu, espaço físico onde, segundo este livro, se pode viver, é para Agualusa um local cada vez mais utilizado no processo criativo. As obrigações literárias e editoriais impõem deslocações constantes, mas as viagens são bem aproveitadas. “Escrevo muito em aviões”, adiantou. “É bom. Tem uma boa vista e estamos com a cabeça nas nuvens”, diz o escritor. 

Rainha Ginga está a caminho...
A Casa da Cultura encheu para ouvir falar de literatura 
Esta sessão do “Muito Cá de Casa” serviu ainda, em questões colocadas pelo público, para revelar algumas das preferências literárias do autor angolano, como os escritores latino-americanos – o argentino Jorge Luis Borges foi “homenageado” no livro “O Vendedor de Passados”, no qual reencarna numa osga. “O primeiro escritor que me deu mais vontade de escrever foi o Eça [de Queirós]. A ‘Nação Crioula’ é-lhe dedicada.”
O “dicionário filosófico do mundo flutuante para uso de nefelibatas”, ou seja, aqueles que vivem nas nuvens, criado para introduzir cada um dos 15 capítulos de “A Vida no Céu” – intitulados Céu, Viagem, Noite, Terra, Magia, Mar, Voar, Identidade, Sonhar, Nuvens, Esperança, Vida, Epifania, Luz e Liberdade –, pode dar origem a uma obra específica, revelou.
Mal acabou aquele romance, Agualusa começou a escrever outro, um pouco na linha do antecessor, por ser “um livro sobre sonhos”, mas parou, o que, indicou, nunca lhe tinha acontecido. Depressa apontou baterias para um romance centrado no século XVII em área geográfica da atual Angola, sobre a Rainha Ginga, mulher com grande liberdade sexual, que queria ser tratada por “rei” e liderava ela mesma as tropas.
“Senti que aquele livro sobre sonhos não era, diria, novo. Este é mesmo novo. O que sinto é: agora, sim, estou a escrever um romance”, afirmou, entusiasmado, José Eduardo Agualusa.
Uma história de identidade 
Outra questão discutida na sessão do “Muito Cá de Casa”, sobre a nacionalidade de um escritor que se reparte por Portugal, Angola e Brasil, acabou por ser esclarecida pela leitura, feita por uma pessoa do público, do significado de Identidade no mencionado dicionário de nefelibatas, oitavo capítulo de “A Vida no Céu”, a que Agualusa respondeu com um bem-humorado “eu não diria melhor”:
“Não tem a ver com o lugar onde nascemos, pois no céu tudo é movimento, e sim com os lugares por onde passamos. Identidade é o que a viagem faz de nós enquanto continua. Só os mortos, os que deixaram de viajar, possuem uma identidade bem definida”, rematou o autor que conquistou a cidade de Setúbal. 

Agência de Notícias
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