A Terra Treme: Setúbal pôs centenas de alunos a treinar três gestos que podem salvar vidas

Na Sebastião da Gama, os estudantes treinaram três gestos essenciais para enfrentar um sismo

Um sismo não avisa. Não escolhe a hora, o lugar ou as pessoas que encontra. E quando acontece, os segundos que passam até alguém perceber como deve reagir podem ser decisivos. Foi precisamente para que esse primeiro instante não seja marcado pelo medo e pela improvisação que centenas de alunos de Setúbal trocaram, por momentos, as aulas habituais por um treino que pode um dia salvar vidas.
Centenas de alunos participaram no exercício nacional, em Setúbal

Eram 11h05 de quinta-feira, 5 de Novembro, quando a Escola Secundária Sebastião da Gama se juntou a milhares de participantes em todo o País para a 14.ª edição do Exercício Nacional de Sensibilização para o Risco Sísmico - A Terra Treme. Nas salas de aula, os estudantes interromperam as atividades, baixaram-se, procuraram proteção debaixo das secretárias e aguardaram durante um minuto.
Três gestos simples, repetidos com um propósito muito concreto: saber o que fazer quando o chão deixa de estar firme.

Baixar, proteger e aguardar: três gestos que podem fazer a diferença
O exercício não terminou quando os alunos saíram debaixo das mesas. Depois de deixarem os materiais escolares nas respetivas salas, dirigiram-se ordeiramente para o ponto de encontro definido, nos campos de jogos exteriores. Ali, foram convidados a partilhar o que tinham aprendido e a levar a experiência para fora da escola, repetindo os gestos em casa e junto de familiares e amigos.
É precisamente essa passagem da aprendizagem à vida quotidiana que dá sentido à iniciativa. Saber como reagir não deve ser uma preocupação reservada aos momentos em que existe um alerta. Deve fazer parte da preparação de cada pessoa, porque, quando um sismo acontece, não há tempo para procurar instruções.

O secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna, Paulo Ribeiro, deixou essa mensagem aos estudantes e à comunidade escolar, apelando à repetição do exercício e à partilha dos conhecimentos adquiridos. "Treinem cada vez mais este exercício", pediu, desafiando os jovens a "ajudem" os pais, familiares e amigos.
"O que nós temos de fazer é estarmos preparados e memorizarmos estes três gestos tão simples - baixar, proteger, aguardar. E depois seguir as indicações da Proteção Civil", afirmou.
O governante deixou ainda um alerta que resume a importância da prevenção: "Nunca se esqueçam de que a terra pode tremer a qualquer momento e por isso temos de treinar A Terra Treme". 

Setúbal não está imune ao risco sísmico

A escolha de Setúbal para receber o evento central desta edição trouxe também para o primeiro plano uma realidade que a região não pode ignorar. O risco sísmico não pertence apenas aos livros de História ou às notícias de outros países. É uma possibilidade que exige preparação, conhecimento e capacidade de resposta.
A vereadora da Câmara Municipal de Setúbal, Ivone Campos, lembrou que a região não está protegida deste tipo de fenómeno e que a sua história demonstra as consequências que um sismo pode provocar.
"A nossa história demonstra que os sismos podem acontecer sem aviso e provocar consequências muito danosas nas pessoas, nos edifícios e nas infraestruturas. Por isso, a melhor forma de reduzirmos os seus efeitos começa muito antes de um sismo acontecer. Começa na prevenção, na informação e na preparação de cada um de nós", afirmou.
Para a autarca, as escolas têm um papel particularmente importante nesta aprendizagem. É ali que crianças e jovens podem adquirir conhecimentos que depois levam para as suas famílias, ajudando a criar uma comunidade mais preparada.
Ivone Campos destacou a importância de os gestos de autoproteção "serem conhecidos e praticados nas escolas, porque a escola é também um espaço de aprendizagem, de cidadania e de responsabilidade coletiva".
A mensagem dirigida aos alunos foi clara: partilhar o que aprenderam é também uma forma de proteger quem está à sua volta. "Estar preparado não impede que um sismo aconteça, mas pode evitar que uma situação de risco se transforme numa tragédia", sublinhou.
A vereadora recordou ainda que a proteção civil não pode ficar apenas nas mãos das autoridades e dos agentes que intervêm em situações de emergência. "A proteção civil é uma responsabilidade de todos, não é apenas uma tarefa das autoridades, dos bombeiros ou dos agentes de proteção civil", afirmou, garantindo que a Câmara Municipal está "empenhada em promover uma cultura de prevenção e segurança, reforçando a sensibilização, a informação e a preparação da população", em particular das crianças e jovens.

A prevenção começa antes de a emergência acontecer
O exercício promovido anualmente pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), em colaboração com diversas entidades públicas e privadas, voltou a mostrar que a preparação não se constrói apenas com equipamentos ou planos de emergência. Constrói-se também através de comportamentos que precisam de ser conhecidos e treinados.
O presidente da ANEPC, José Manuel Moura, destacou a dimensão nacional da iniciativa, recordando que o exercício foi "replicado a nível nacional por mais de uma centena de escolas".
Para o responsável, tudo o que possa ser feito antecipadamente merece reconhecimento, porque a prevenção é uma componente essencial da resposta a um fenómeno que não pode ser previsto com precisão. "Este foi um sismo tecnológico, mas não sabemos quando será o dia em que teremos um sismo não tecnológico", referiu, salientando a importância da articulação demonstrada em Setúbal, "com a presença de todos os agentes de proteção civil".
José Manuel Moura recordou que "a Terra treme todos os dias" e partilhou a experiência de um evento sísmico que acompanhou na América do Sul, onde, segundo relatou, um sismo de 9.8 na escala de Richter teve "mais de 300 réplicas", uma das quais de 7.8.
O presidente da ANEPC chamou também a atenção para a dificuldade de reação perante um fenómeno desta dimensão. Independentemente da experiência ou dos conhecimentos de cada pessoa, ninguém está dispensado de enfrentar a dificuldade de reagir quando a terra começa a tremer.
Por muito preparadas que estejam, as pessoas estão todas expostas "à dificuldade de reagir" perante um sismo de grande dimensão. É por isso que, defendeu, importa fazer antecipadamente "tudo o que se possa fazer" no domínio da prevenção.
Uma ideia que foi igualmente reforçada por Sónia Pestana, subintendente e coordenadora da Unidade de Segurança Escolar da Agência para a Gestão do Sistema Educativo.
A responsável considerou que a segurança "constrói-se sobretudo com conhecimento com treino, coordenação e uma cultura partilhada de responsabilidade", destacando a importância do exercício realizado na Escola Secundária Sebastião da Gama como "um momento de aprendizagem coletiva" e de reforço da capacidade de resposta.

Uma escola onde aprender também é saber proteger
Um agente da PSP com um cão de busca e salvamento
A escolha da Escola Secundária Sebastião da Gama para acolher o evento central nacional deu à comunidade educativa a oportunidade de participar numa iniciativa que ultrapassou as paredes das salas de aula.
A diretora do Agrupamento de Escolas Sebastião da Gama, Maria Fernanda Oliveira, agradeceu a confiança das entidades organizadoras e destacou o papel da escola na formação de cidadãos conscientes e preparados.
Considerou que a escola é o "espaço ideal onde se formam cidadãos conscientes, preparados e resilientes", lembrando que a preparação individual e coletiva pode ser determinante quando surge uma situação de emergência. "A preparação individual e coletiva é, sem margem para dúvidas, a linha que separa o pânico da segurança e que pode efetivamente salvar vidas", afirmou.
Depois do exercício, o programa prosseguiu com uma demonstração da equipa cinotécnica de busca e salvamento da Polícia de Segurança Pública, permitindo aos participantes conhecer uma das valências mobilizadas em operações de emergência.

Saber o que fazer pode mudar tudo
Quando o exercício terminou, os alunos regressaram à rotina escolar. Mas a aprendizagem que levaram consigo não deve ficar esquecida até à próxima simulação.
Um sismo pode acontecer enquanto alguém está numa sala de aula, em casa, num supermercado ou na rua. E, perante essa possibilidade, conhecer os comportamentos adequados é uma forma de reduzir riscos e proteger vidas.
Foi essa a mensagem que Setúbal colocou no centro de uma iniciativa nacional: não podemos escolher quando a terra treme, mas podemos preparar-nos para saber como agir. Baixar, proteger e aguardar. Três gestos que parecem simples, mas que precisam de ser conhecidos antes de serem necessários.

Agência de Notícias 
Fotografia: CM Setúbal 

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