Setúbal quer levar a mais parques infantis uma nova forma de comunicar sem palavras

No Jardim do Bonfim, um sistema simples de símbolos permite expressar vontades, emoções e escolhas

Querer ir ao baloiço, dizer que se tem frio, escolher uma brincadeira ou simplesmente mostrar que se precisa de ajuda são gestos do quotidiano que muitas crianças fazem naturalmente. Mas, para quem não consegue comunicar através da fala, expressar uma vontade ou fazer-se compreender pode ser um desafio. No Jardim do Bonfim, em Setúbal, um quadro de comunicação inclusiva vem abrir novas possibilidades para que estas crianças possam participar nas brincadeiras e interagir com os outros.
A inclusão começa na comunicação e Setúbal quer chegar mais longe

Uma criança nem sempre precisa de palavras para saber o que quer, mas precisa de encontrar uma forma de o transmitir. É a pensar nas crianças que não conseguem comunicar através da fala que Setúbal inaugurou, a 27 de Outubro, o primeiro quadro de comunicação inclusiva do concelho, no Jardim do Bonfim. O objetivo é que esta resposta não fique limitada a um único parque infantil e possa chegar a outros espaços da cidade.
A ideia é permitir que mais crianças consigam participar nas brincadeiras, manifestar preferências e expressar necessidades através de símbolos simples, num espaço onde a comunicação não dependa exclusivamente da capacidade de falar. Para João Torres, responsável pelo projeto Nas Asas da Diversidade, alargar esta possibilidade a outros parques é um caminho que importa prosseguir.
"Queremos que exista em mais parques da nossa cidade, vamos fazer de tudo para que isso seja possível", afirmou o terapeuta da fala.
O quadro instalado no Jardim do Bonfim é o primeiro passo desse percurso. A sua presença chama a atenção para uma dimensão da acessibilidade que pode passar despercebida: uma criança pode conseguir chegar a um parque infantil, mas continuar a encontrar dificuldades para comunicar com as outras crianças e com os adultos.
"Brincar é um direito fundamental da infância e comunicar é essencial para que esse direito seja vivido em pleno", sublinhou Maria do Carmo Tiago, vice-presidente da Câmara Municipal de Setúbal.
A autarca defendeu que os espaços infantis devem garantir condições de participação para todas as crianças, independentemente das suas capacidades ou dificuldades. "A instalação deste primeiro quadro no concelho é um ponto de partida. Queremos continuar a trabalhar para que os nossos espaços infantis sejam espaços verdadeiramente acessíveis, não apenas do ponto de vista físico, mas também de comunicação, de participação e de igualdade de oportunidades", afirmou.

Uma escolha pode começar com um símbolo
O quadro funciona através de símbolos pictográficos, organizados por categorias e cores, que representam pessoas, objectos, acções e sentimentos. Em vez de depender apenas da fala, a criança pode apontar para uma imagem, recorrer a gestos ou utilizar o olhar para mostrar o que pretende.
A solução pode apoiar crianças com perturbação do espetro do autismo, paralisia cerebral e outras dificuldades de comunicação. Pode também ser útil para crianças migrantes que ainda não dominam a língua portuguesa e para aquelas que estão a desenvolver a linguagem oral.
Miriam Azevedo, representante da ANDITEC - Tecnologias de Reabilitação, explicou que o equipamento não precisa de dispositivos electrónicos para cumprir a sua função. A simplicidade foi uma escolha deliberada, para que a ferramenta possa ser utilizada no quotidiano, sem conhecimentos técnicos específicos. "É algo simples, não é nada tecnológico. A simplicidade é o objetivo", destacou.
Um adulto pode falar com a criança enquanto aponta para os símbolos, perguntando-lhe, por exemplo, se quer ir ao baloiço ou se está com calor ou frio. A imagem ajuda a tornar a mensagem mais acessível e abre espaço para uma resposta que não tem de ser dada através de palavras.
"O quadro foi construído para ser intuitivo, para a comunicação ser fácil para qualquer pessoa", explicou Miriam Azevedo.
Pais, avós, educadores e outras pessoas que frequentem o parque podem utilizar o equipamento, seguindo as instruções disponíveis no próprio quadro. A intenção é que a comunicação inclusiva não fique dependente de profissionais especializados, mas possa fazer parte das interações habituais entre crianças e adultos.

Um projeto construído com quem conhece estas dificuldades
O quadro integra o projeto "Aqui Comunicam TODOS!", desenvolvido pela ANDITEC e pelo projeto Nas Asas da Diversidade, em articulação com a Câmara Municipal de Setúbal.
A preparação do equipamento contou com a colaboração de especialistas, famílias e pessoas com necessidades complexas de comunicação. Os seus contributos ajudaram a avaliar as opções tomadas e a perceber se os símbolos e a organização do quadro respondiam às necessidades de quem o iria utilizar.
"Foi um conjunto de peritos que nos ajudou a perceber se aquilo que nós pensámos fazia sentido", referiu João Torres, destacando a importância de envolver pessoas com experiência direta nesta área.
A inauguração reuniu crianças, famílias, representantes de agrupamentos de escolas, equipas de intervenção precoce, centros de recursos para a inclusão e outros projetos da cidade.
A possibilidade de levar o equipamento a outros parques infantis mantém-se como o próximo objetivo anunciado pelo projeto Nas Asas da Diversidade. A concretização dessa intenção permitirá alargar a presença de ferramentas de comunicação inclusiva nos espaços de brincadeira da cidade.
No fundo, a questão vai além da instalação de um quadro: passa por garantir que uma criança que não consegue falar também encontra uma maneira de escolher, pedir, responder e participar. Como resumiu Miriam Azevedo, "sem comunicação não há participação, e sem participação não há inclusão".

Agência de Notícias 
Fotografia: CM Setúbal 


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