Antigo modelo de rotatividade foi entretanto substituído pela urgência regional em Almada e em Setúbal
Só agora é conhecido um relatório que lança um novo olhar sobre a resposta de Ginecologia e Obstetrícia na Península de Setúbal: durante o período analisado, houve dias em que nenhuma urgência obstétrica da região esteve em funcionamento. A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde conclui que o modelo de rotatividade então existente "falhou", num cenário marcado pela falta de especialistas e pela instabilidade das escalas. Dos dias analisados entre Abril e Maio de 2025, apenas 29 e 30 de Abril decorreram sem constrangimentos.![]() |
| O modelo de urgência na Península de Setúbal foi alterado em Abril |
Mais de um ano depois dos acontecimentos analisados e dois meses após a sua homologação, foi esta semana divulgado o relatório que revela as falhas então registadas na urgência de Ginecologia e Obstetrícia da Península de Setúbal.
O cenário encontrado no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, é descrito num relatório que coloca em causa o modelo que, na altura, assegurava a resposta de urgência na Península de Setúbal.
A inspeção acompanhou o funcionamento da Ginecologia e Obstetrícia entre 13 de Abril e 4 de Maio de 2025 e encontrou "instabilidade na construção das escalas de urgência", diretamente condicionada pela "escassez de especialistas" na área.
Mas, para a entidade fiscalizadora, o problema não ficava apenas pela falta de médicos.
O modelo regional de rotatividade adotado para garantir a resposta dos diferentes hospitais acabou por agravar uma situação já frágil. No relatório, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde conclui que esse sistema "falhou na missão de garantir um serviço sempre aberto".
Houve dias em que nenhuma urgência da região estava disponível
Um dos aspetos mais preocupantes identificados durante a análise foi a existência de dias em que nenhum dos serviços de urgência de Ginecologia e Obstetrícia da Península de Setúbal se encontrava em funcionamento.
Para a inspeção, esta realidade expôs "fragilidades na articulação entre as várias unidades locais de saúde e no planeamento centralizado, limitando a eficácia do modelo".
Na prática, a solução criada para assegurar uma resposta regional acabou por revelar dificuldades precisamente naquilo que deveria garantir: que, em cada momento, existisse uma porta aberta para situações obstétricas urgentes.
O relatório vai ainda mais longe quando analisa alguns dos encaminhamentos realizados durante esse período.
Um dos aspetos mais preocupantes identificados durante a análise foi a existência de dias em que nenhum dos serviços de urgência de Ginecologia e Obstetrícia da Península de Setúbal se encontrava em funcionamento.
Para a inspeção, esta realidade expôs "fragilidades na articulação entre as várias unidades locais de saúde e no planeamento centralizado, limitando a eficácia do modelo".
Na prática, a solução criada para assegurar uma resposta regional acabou por revelar dificuldades precisamente naquilo que deveria garantir: que, em cada momento, existisse uma porta aberta para situações obstétricas urgentes.
O relatório vai ainda mais longe quando analisa alguns dos encaminhamentos realizados durante esse período.
Encaminhamentos de grávidas levantaram preocupações clínicas
A entidade fiscalizadora identificou episódios de "encaminhamento inadequado" de grávidas com menos de 34 semanas de gestação.
Segundo o relatório, esses episódios estiveram associados a "desfechos neonatais adversos" e "levantaram sérias preocupações de segurança clínica".
É uma das passagens mais sensíveis da análise e uma das razões pelas quais a inspeção considera que a manutenção do modelo então existente poderia representar um risco, não apenas para a sustentabilidade das equipas, mas também para a segurança dos cuidados prestados.
Perante este cenário, a recomendação passa por uma mudança estrutural e não apenas por ajustes pontuais. Entre as medidas apontadas estão o recrutamento e a fidelização de profissionais, uma melhor articulação entre as unidades de saúde e um planeamento regional mais consistente.
A preocupação é clara: sem capacidade para formar equipas estáveis, organizar escalas de forma previsível e garantir resposta contínua, a assistência em Ginecologia e Obstetrícia poderá continuar vulnerável.
A entidade fiscalizadora identificou episódios de "encaminhamento inadequado" de grávidas com menos de 34 semanas de gestação.
Segundo o relatório, esses episódios estiveram associados a "desfechos neonatais adversos" e "levantaram sérias preocupações de segurança clínica".
É uma das passagens mais sensíveis da análise e uma das razões pelas quais a inspeção considera que a manutenção do modelo então existente poderia representar um risco, não apenas para a sustentabilidade das equipas, mas também para a segurança dos cuidados prestados.
Perante este cenário, a recomendação passa por uma mudança estrutural e não apenas por ajustes pontuais. Entre as medidas apontadas estão o recrutamento e a fidelização de profissionais, uma melhor articulação entre as unidades de saúde e um planeamento regional mais consistente.
A preocupação é clara: sem capacidade para formar equipas estáveis, organizar escalas de forma previsível e garantir resposta contínua, a assistência em Ginecologia e Obstetrícia poderá continuar vulnerável.
Um ano depois, o modelo já é outro
O relatório analisa uma realidade que entretanto mudou. A 15 de Abril de 2026 entrou em funcionamento a nova urgência regional de Ginecologia e Obstetrícia da Península de Setúbal, substituindo o anterior modelo de rotatividade.
A resposta passou a estar concentrada em dois pólos: o Hospital Garcia de Orta, em Almada, e o Hospital de São Bernardo, em Setúbal.
Ou seja, as conclusões agora conhecidas dizem respeito ao modelo que estava em vigor em 2025 e que acabou por ser alterado precisamente antes da divulgação do relatório.
O documento foi homologado pela ministra da Saúde a 12 de Junho de 2026 e só esta semana foi tornado público pela entidade fiscalizadora.
Mais do que contabilizar os dias em que uma urgência abriu ou fechou, a conclusão da inspeção deixa uma questão de fundo: numa região onde a resposta obstétrica depende de uma rede de unidades hospitalares, a existência de equipas suficientes e de uma articulação eficaz pode ser tão determinante como ter portas abertas.
O relatório analisa uma realidade que entretanto mudou. A 15 de Abril de 2026 entrou em funcionamento a nova urgência regional de Ginecologia e Obstetrícia da Península de Setúbal, substituindo o anterior modelo de rotatividade.
A resposta passou a estar concentrada em dois pólos: o Hospital Garcia de Orta, em Almada, e o Hospital de São Bernardo, em Setúbal.
Ou seja, as conclusões agora conhecidas dizem respeito ao modelo que estava em vigor em 2025 e que acabou por ser alterado precisamente antes da divulgação do relatório.
O documento foi homologado pela ministra da Saúde a 12 de Junho de 2026 e só esta semana foi tornado público pela entidade fiscalizadora.
Mais do que contabilizar os dias em que uma urgência abriu ou fechou, a conclusão da inspeção deixa uma questão de fundo: numa região onde a resposta obstétrica depende de uma rede de unidades hospitalares, a existência de equipas suficientes e de uma articulação eficaz pode ser tão determinante como ter portas abertas.

Comentários
Enviar um comentário