Mobilidade em rutura, saúde sob pressão e uma freguesia que quer ser cidade
Mobilidade em rutura, uma EN 252 classificada como "atentado" à saúde pública, falta persistente de médicos de família e zonas rurais que admitem sentir-se esquecidas. Seis meses depois de assumir a presidência da Junta de Freguesia do Pinhal Novo, João Estróia Vieira traça, numa entrevista exclusiva à ADN–Agência de Notícias, um retrato direto das urgências que marcam o território: reorganizar a mobilidade, pressionar por soluções na saúde, investir no espaço público degradado, reforçar a resposta nas zonas rurais e devolver escala à cultura local. Tudo isto numa freguesia em crescimento que quer afirmar-se como cidade, mas que ainda enfrenta desafios estruturais profundos.
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| Entrevista destaca principais desafios da freguesia do Pinhal Novo |
"Sinto o peso da responsabilidade dos votos que as pessoas depositaram em mim, mas não sinto nenhuma herança histórica. Aquilo que sinto é a obrigação de corresponder às expectativas de uma mudança que foi histórica, porque muitas pessoas que sempre tinham votado na mesma força política decidiram mudar o seu voto. Nós temos de honrar isso e cumprir aquilo que prometemos".
Essa responsabilidade traduz-se numa gestão feita num executivo sem maioria absoluta, onde o PS governa em coligação com a CDU.
Ainda assim, o autarca descreve um ambiente de cooperação pragmática.
"É mais ação do que negociação. Claro que existe negociação, mas estamos todos aqui pelos mesmos motivos: melhorar a vida da população do Pinhal Novo. Até agora, tudo o que foi feito tem tido o acordo das diferentes forças políticas".
A estabilidade política mede-se, segundo refere, nas decisões tomadas. Um exemplo recente foi a aprovação do saldo de gerência na Assembleia de Freguesia.
"Foi aprovado com 16 votos a favor e apenas três abstenções. Mesmo essas abstenções deram pareceres positivos em vários pontos. Interpreto isso como um voto de confiança no trabalho que está a ser desenvolvido pelo executivo".
O espaço público como "quintal" das pessoas
Entre as prioridades do mandato surge uma ideia que o presidente repete como princípio político: cuidar do espaço público.
"A limpeza urbana nunca pode ser descurada. Eu digo muitas vezes que quando as pessoas saem de casa, a rua passa a ser o quintal delas. E esse quintal tem de estar cuidado, porque é aí que as pessoas sentem o retorno dos impostos que pagam".
A preocupação não é apenas estética. Em vários equipamentos da freguesia, o estado de degradação exige intervenção urgente.
"Se alguém entrar hoje nas casas de banho do mercado mensal vê portas a cair de podre, tetos degradados e um estado completamente inaceitável. Nos cemitérios também precisamos de pintura e manutenção, e o próprio edifício da Junta tem zonas que necessitam de intervenção".
O objetivo, garante, é resolver problemas antes que se tornem irreversíveis. "Há edifícios que, se não forem intervencionados agora, começam a ruir. Eu não quero deixar esse problema para quem vier a seguir".
Entre as prioridades do mandato surge uma ideia que o presidente repete como princípio político: cuidar do espaço público.
"A limpeza urbana nunca pode ser descurada. Eu digo muitas vezes que quando as pessoas saem de casa, a rua passa a ser o quintal delas. E esse quintal tem de estar cuidado, porque é aí que as pessoas sentem o retorno dos impostos que pagam".
A preocupação não é apenas estética. Em vários equipamentos da freguesia, o estado de degradação exige intervenção urgente.
"Se alguém entrar hoje nas casas de banho do mercado mensal vê portas a cair de podre, tetos degradados e um estado completamente inaceitável. Nos cemitérios também precisamos de pintura e manutenção, e o próprio edifício da Junta tem zonas que necessitam de intervenção".
O objetivo, garante, é resolver problemas antes que se tornem irreversíveis. "Há edifícios que, se não forem intervencionados agora, começam a ruir. Eu não quero deixar esse problema para quem vier a seguir".
Tempestades expuseram fragilidades
Os últimos meses foram também marcados por episódios de intempérie que colocaram pressão adicional sobre a freguesia.
O autarca é claro: a dimensão dos fenómenos ultrapassou qualquer capacidade de resposta local.
"Não há nenhuma freguesia preparada para crises deste tipo. Tivemos praticamente uma tempestade grave por mês e há décadas que não se via algo assim. A força da natureza é soberana".
Mesmo assim, admite que existem áreas onde a resposta pode melhorar. "Se podia ter sido feita mais limpeza de bermas? Sim. Se os aceiros podiam ter sido mais cuidados? Sim. Mas também temos de ser realistas: estamos a falar de mais de 80 quilómetros de aceiros para apenas uma motoniveladora".
A resposta passa agora por reforçar investimento. "Estamos praticamente a duplicar as verbas para limpeza de bermas, aceiros e contratação de serviços. Em muitos casos já não estamos a falar de manutenção, mas de reconstrução de infraestruturas que foram levadas pelas águas".
Os últimos meses foram também marcados por episódios de intempérie que colocaram pressão adicional sobre a freguesia.
O autarca é claro: a dimensão dos fenómenos ultrapassou qualquer capacidade de resposta local.
"Não há nenhuma freguesia preparada para crises deste tipo. Tivemos praticamente uma tempestade grave por mês e há décadas que não se via algo assim. A força da natureza é soberana".
Mesmo assim, admite que existem áreas onde a resposta pode melhorar. "Se podia ter sido feita mais limpeza de bermas? Sim. Se os aceiros podiam ter sido mais cuidados? Sim. Mas também temos de ser realistas: estamos a falar de mais de 80 quilómetros de aceiros para apenas uma motoniveladora".
A resposta passa agora por reforçar investimento. "Estamos praticamente a duplicar as verbas para limpeza de bermas, aceiros e contratação de serviços. Em muitos casos já não estamos a falar de manutenção, mas de reconstrução de infraestruturas que foram levadas pelas águas".
Mobilidade no centro dos investimentos
O crescimento acelerado do Pinhal Novo trouxe consigo um problema cada vez mais visível no quotidiano da população: a mobilidade deixou de acompanhar o ritmo do território. Para João Estróia Vieira, a realidade atual já não pode ser tratada como um incómodo pontual, mas como uma fragilidade estrutural que exige intervenção urgente.
"Hoje já não falamos apenas de dificuldades em determinadas horas do dia. O que sentimos no Pinhal Novo é praticamente um congestionamento permanente. A mobilidade não acompanhou o crescimento da freguesia e isso é evidente para quem vive aqui todos os dias. Temos mais pessoas, mais deslocações, mais necessidades, mas as infraestruturas continuam praticamente as mesmas", explica.
A estratégia da Junta começa pelo que considera ser o nível mais básico para tornar a circulação pedonal segura e acessível.
"Estamos a começar por algo que pode parecer simples, mas que é essencial: melhorar a acessibilidade. O rebaixamento de passadeiras é um exemplo concreto. Quem passa na zona do Pingo Doce já começa a perceber a lógica da intervenção. Não estamos apenas a mexer numa passadeira isolada, estamos a iniciar um processo que queremos aplicar ao longo de toda a freguesia".
O objetivo passa por rever ligações fundamentais entre zonas residenciais e serviços essenciais.
"Vamos fazer uma análise muito detalhada das passadeiras que fazem ligação direta a centros de saúde, escolas, serviços públicos e transportes. A ideia é garantir percursos acessíveis, com lancis rebaixados, piso tátil e melhores condições para todos. Isto não é apenas uma questão de mobilidade - é também uma questão de inclusão, de dignidade e de igualdade no acesso ao espaço público".
No entanto, os problemas vão muito além da circulação pedonal.
"Há zonas do Pinhal Novo onde simplesmente não existe continuidade urbana. Temos passeios que terminam de forma abrupta, troços que nunca foram construídos porque dependiam de loteadores privados e terrenos abandonados há anos. A questão é simples: ficamos à espera indefinidamente ou assumimos a responsabilidade de resolver o problema? A minha posição é clara: se aquela ligação faz falta às pessoas, então temos de avançar".
O exemplo mais evidente surge em áreas residenciais onde o crescimento urbano não foi acompanhado por infraestrutura adequada.
"Há locais, como a ligação da Vila Serena às paragens de autocarro, onde o percurso ainda é praticamente mato. Não existe passeio, não existe pavimento, não existe qualquer estrutura digna para quem precisa de usar aquele caminho todos os dias. Isto não é aceitável numa freguesia com a dimensão e a importância que o Pinhal Novo já tem".
"Hoje já não falamos apenas de dificuldades em determinadas horas do dia. O que sentimos no Pinhal Novo é praticamente um congestionamento permanente. A mobilidade não acompanhou o crescimento da freguesia e isso é evidente para quem vive aqui todos os dias. Temos mais pessoas, mais deslocações, mais necessidades, mas as infraestruturas continuam praticamente as mesmas", explica.
A estratégia da Junta começa pelo que considera ser o nível mais básico para tornar a circulação pedonal segura e acessível.
"Estamos a começar por algo que pode parecer simples, mas que é essencial: melhorar a acessibilidade. O rebaixamento de passadeiras é um exemplo concreto. Quem passa na zona do Pingo Doce já começa a perceber a lógica da intervenção. Não estamos apenas a mexer numa passadeira isolada, estamos a iniciar um processo que queremos aplicar ao longo de toda a freguesia".
O objetivo passa por rever ligações fundamentais entre zonas residenciais e serviços essenciais.
"Vamos fazer uma análise muito detalhada das passadeiras que fazem ligação direta a centros de saúde, escolas, serviços públicos e transportes. A ideia é garantir percursos acessíveis, com lancis rebaixados, piso tátil e melhores condições para todos. Isto não é apenas uma questão de mobilidade - é também uma questão de inclusão, de dignidade e de igualdade no acesso ao espaço público".
No entanto, os problemas vão muito além da circulação pedonal.
"Há zonas do Pinhal Novo onde simplesmente não existe continuidade urbana. Temos passeios que terminam de forma abrupta, troços que nunca foram construídos porque dependiam de loteadores privados e terrenos abandonados há anos. A questão é simples: ficamos à espera indefinidamente ou assumimos a responsabilidade de resolver o problema? A minha posição é clara: se aquela ligação faz falta às pessoas, então temos de avançar".
O exemplo mais evidente surge em áreas residenciais onde o crescimento urbano não foi acompanhado por infraestrutura adequada.
"Há locais, como a ligação da Vila Serena às paragens de autocarro, onde o percurso ainda é praticamente mato. Não existe passeio, não existe pavimento, não existe qualquer estrutura digna para quem precisa de usar aquele caminho todos os dias. Isto não é aceitável numa freguesia com a dimensão e a importância que o Pinhal Novo já tem".
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| O "inferno" diário da EN 252 atravessa a vila inteira |
A EN 252: "um atentado à mobilidade e à saúde pública"
Entre todos os problemas de mobilidade, há um que concentra a maior preocupação do presidente da Junta: a Estrada Nacional 252.
Para João Estróia Vieira, a situação ultrapassou há muito tempo o limite do aceitável.
"A variante à EN 252 já devia existir há décadas. Estamos a falar de uma necessidade que se discute desde os anos 80 e 90 e que, mesmo assim, continua por resolver. Hoje a estrada atravessa literalmente o coração da freguesia e tornou-se um problema grave de mobilidade, de segurança e até de saúde pública".
O autarca não poupa palavras ao descrever a realidade.
"Quando digo que isto é um atentado à saúde pública não é um exagero. Estamos a falar de trânsito constante, de poluição, de ruído, de veículos pesados a atravessar zonas densamente habitadas. Isto afeta diretamente a qualidade de vida das pessoas".
O problema deixou de estar limitado aos tradicionais picos de tráfego.
"Já não existe propriamente hora de ponta. O dia inteiro funciona como uma hora de ponta permanente, porque esta é praticamente a única grande via de atravessamento da freguesia. As pessoas procuram alternativas por estradas secundárias que muitas vezes nem sequer estão preparadas para esse volume de circulação".
Para o presidente da Junta, a solução depende de uma decisão política clara ao nível nacional.
"Isto tem de ser assumido como prioridade pelo Governo. Não podemos continuar a empurrar este problema ano após ano. E se for preciso fazer pressão política, nós faremos. Se for preciso ir para a frente dos ministérios com um grupo de pinhalovenses exigir soluções, também iremos. Porque há momentos em que é preciso dizer claramente que isto já devia estar resolvido".
Entre todos os problemas de mobilidade, há um que concentra a maior preocupação do presidente da Junta: a Estrada Nacional 252.
Para João Estróia Vieira, a situação ultrapassou há muito tempo o limite do aceitável.
"A variante à EN 252 já devia existir há décadas. Estamos a falar de uma necessidade que se discute desde os anos 80 e 90 e que, mesmo assim, continua por resolver. Hoje a estrada atravessa literalmente o coração da freguesia e tornou-se um problema grave de mobilidade, de segurança e até de saúde pública".
O autarca não poupa palavras ao descrever a realidade.
"Quando digo que isto é um atentado à saúde pública não é um exagero. Estamos a falar de trânsito constante, de poluição, de ruído, de veículos pesados a atravessar zonas densamente habitadas. Isto afeta diretamente a qualidade de vida das pessoas".
O problema deixou de estar limitado aos tradicionais picos de tráfego.
"Já não existe propriamente hora de ponta. O dia inteiro funciona como uma hora de ponta permanente, porque esta é praticamente a única grande via de atravessamento da freguesia. As pessoas procuram alternativas por estradas secundárias que muitas vezes nem sequer estão preparadas para esse volume de circulação".
Para o presidente da Junta, a solução depende de uma decisão política clara ao nível nacional.
"Isto tem de ser assumido como prioridade pelo Governo. Não podemos continuar a empurrar este problema ano após ano. E se for preciso fazer pressão política, nós faremos. Se for preciso ir para a frente dos ministérios com um grupo de pinhalovenses exigir soluções, também iremos. Porque há momentos em que é preciso dizer claramente que isto já devia estar resolvido".
Ferrovia estratégica, mas com potencial desaproveitado
Se a rede rodoviária revela fragilidades evidentes, a ferrovia representa ao mesmo tempo uma grande vantagem e uma oportunidade ainda incompleta para o Pinhal Novo.
"Temos uma estação absolutamente estratégica. É um ponto ferroviário único porque faz a ligação à linha do Algarve, à linha do Alentejo e às ligações para Lisboa e para o Norte do país. Esta centralidade é uma vantagem enorme para o território".
No entanto, João Estróia Vieira considera que essa posição estratégica nunca foi totalmente acompanhada por uma visão integrada de mobilidade.
"Pensou-se muito no imediato, no curto prazo, qual era a solução mais rápida, e não tanto numa visão de médio e longo prazo. Hoje vemos isso no terreno: os autocarros não estão articulados da melhor forma com o comboio, os percursos pedonais não são os mais diretos e há situações de pessoas a terem de atravessar o jardim à pressa para conseguir apanhar um transporte", sublinha.
Essa desarticulação cria dificuldades concretas para quem depende diariamente dos transportes públicos.
"São minutos que fazem diferença. São ligações que se perdem. E quando isso acontece repetidamente, as pessoas acabam por desistir do transporte público".
Se a rede rodoviária revela fragilidades evidentes, a ferrovia representa ao mesmo tempo uma grande vantagem e uma oportunidade ainda incompleta para o Pinhal Novo.
"Temos uma estação absolutamente estratégica. É um ponto ferroviário único porque faz a ligação à linha do Algarve, à linha do Alentejo e às ligações para Lisboa e para o Norte do país. Esta centralidade é uma vantagem enorme para o território".
No entanto, João Estróia Vieira considera que essa posição estratégica nunca foi totalmente acompanhada por uma visão integrada de mobilidade.
"Pensou-se muito no imediato, no curto prazo, qual era a solução mais rápida, e não tanto numa visão de médio e longo prazo. Hoje vemos isso no terreno: os autocarros não estão articulados da melhor forma com o comboio, os percursos pedonais não são os mais diretos e há situações de pessoas a terem de atravessar o jardim à pressa para conseguir apanhar um transporte", sublinha.
Essa desarticulação cria dificuldades concretas para quem depende diariamente dos transportes públicos.
"São minutos que fazem diferença. São ligações que se perdem. E quando isso acontece repetidamente, as pessoas acabam por desistir do transporte público".
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| Uma torre histórica ao abandono e a impedir mais comboios |
Para o autarca, trata-se de um exemplo claro de planeamento incompleto. "A torre devia ter sido deslocalizada quando decorreram as obras da estação. Era o momento ideal para integrar aquele património num projeto mais amplo de valorização histórica. Hoje poderia ser um espaço visitável, ligado ao Museu da Estação".
A decisão adiada acabou por aumentar a complexidade da solução.
"Agora qualquer tentativa de resolver o problema será muito mais cara e mais difícil. Vai exigir recursos que poderiam ter sido poupados se a decisão tivesse sido tomada na altura certa".
Ainda assim, a ideia de recuperar o património continua em cima da mesa.
"Já se falou na possibilidade de colocar a torre junto ao Museu da Estação, criando ali um pequeno polo histórico dedicado à memória ferroviária do Pinhal Novo. Para mim faria todo o sentido - valorizava o património e reforçava a identidade da freguesia".
Saúde: a preocupação que atravessa todo o território
Entre os vários temas abordados, a saúde surge como uma das maiores inquietações do presidente da Junta.
"Preocupa-me muito que certas situações estejam a começar a ser vistas como normais. Preocupa-me que se aceite com naturalidade que pessoas tenham de se deslocar para Lisboa para dar à luz ou que determinados serviços hospitalares fechem com facilidade".
A crítica não se limita a um ciclo político específico. "Houve, ao longo de muitos anos, um desinvestimento significativo no Serviço Nacional de Saúde. E aquilo que me preocupa é que, em vez de se inverter essa tendência, parece que se está a criar uma espécie de hábito nas pessoas de recorrer ao setor privado".
No plano local, o problema mais sentido continua a ser a falta de médicos de família.
"Temos dois centros de saúde no Pinhal Novo, mas, mesmo assim, muitas pessoas continuam sem médico de família. E isso é, provavelmente, a dificuldade que mais impacta diretamente a vida das pessoas".
Entre os vários temas abordados, a saúde surge como uma das maiores inquietações do presidente da Junta.
"Preocupa-me muito que certas situações estejam a começar a ser vistas como normais. Preocupa-me que se aceite com naturalidade que pessoas tenham de se deslocar para Lisboa para dar à luz ou que determinados serviços hospitalares fechem com facilidade".
A crítica não se limita a um ciclo político específico. "Houve, ao longo de muitos anos, um desinvestimento significativo no Serviço Nacional de Saúde. E aquilo que me preocupa é que, em vez de se inverter essa tendência, parece que se está a criar uma espécie de hábito nas pessoas de recorrer ao setor privado".
No plano local, o problema mais sentido continua a ser a falta de médicos de família.
"Temos dois centros de saúde no Pinhal Novo, mas, mesmo assim, muitas pessoas continuam sem médico de família. E isso é, provavelmente, a dificuldade que mais impacta diretamente a vida das pessoas".
O crescimento populacional agravou essa pressão
"O centro de saúde do lado norte já devia ter outra capacidade de resposta, porque a população aumentou muito e os serviços não acompanharam esse crescimento".
Apesar disso, o autarca reconhece limites claros de intervenção. "A Junta de Freguesia não pode contratar médicos. Não vale a pena criar expectativas irrealistas. Aquilo que podemos fazer é pressionar as entidades responsáveis, sinalizar os problemas e trabalhar em conjunto com a Câmara Municipal".
"O centro de saúde do lado norte já devia ter outra capacidade de resposta, porque a população aumentou muito e os serviços não acompanharam esse crescimento".
Apesar disso, o autarca reconhece limites claros de intervenção. "A Junta de Freguesia não pode contratar médicos. Não vale a pena criar expectativas irrealistas. Aquilo que podemos fazer é pressionar as entidades responsáveis, sinalizar os problemas e trabalhar em conjunto com a Câmara Municipal".
Zonas rurais ganham prioridade e balcão de saúde móvel
O Balcão SNS24 é o ponto de partida para uma nova abordagem nas zonas rurais do Pinhal Novo. A Junta quer levar serviços de saúde às populações mais afastadas com soluções simples e diretas.
"Basta a nossa técnica deslocar-se, levar um portátil e acesso à internet".
O objetivo é claro: permitir renovar receitas e fazer teleconsultas sem sair da localidade e garantir cobertura em toda a freguesia.
"Basta a nossa técnica deslocar-se, levar um portátil e acesso à internet".
O objetivo é claro: permitir renovar receitas e fazer teleconsultas sem sair da localidade e garantir cobertura em toda a freguesia.
A medida surge num contexto que o presidente da Junta, João Estróia Vieira, reconhece sem rodeios.
"Sentem-se abandonados e têm verdade nessa forma de pensar". A sensação de abandono existe e tem base real.
"Há uma grande falta de recursos humanos e de maquinaria", explica, admitindo que o trabalho acaba por se concentrar no centro.
"Se pensarmos no que há na vila, nunca saímos daqui".
Para inverter esse padrão, o executivo aposta num novo método: intervenção planeada e concentrada no terreno. "Há dias definidos para atuar e vamos em força".
A prioridade recai nos acessos e na manutenção, com reforço financeiro "na rúbrica dos aceiros", mais horas de motoniveladora e limpeza de bermas intensificada, para prevenir problemas ao longo do ano.
A resposta estende-se a todo o território, com intervenções na Lagoa da Palha, investimentos no Rio Frio e melhorias de mobilidade em Olhos de Água.
O critério é assumido: "É aquilo que mais faz falta às pessoas". Nas zonas rurais, isso traduz-se em manutenção contínua.
"Essas rubricas vão ter de estar sempre carregadas, ponto final".
O objetivo político é também reduzir desigualdades internas. João Estróia Vieira reconhece a divisão sentida entre norte e sul e quer atenuá-la com mais presença e ação no terreno.
"Sentem-se abandonados e têm verdade nessa forma de pensar". A sensação de abandono existe e tem base real.
"Há uma grande falta de recursos humanos e de maquinaria", explica, admitindo que o trabalho acaba por se concentrar no centro.
"Se pensarmos no que há na vila, nunca saímos daqui".
Para inverter esse padrão, o executivo aposta num novo método: intervenção planeada e concentrada no terreno. "Há dias definidos para atuar e vamos em força".
A prioridade recai nos acessos e na manutenção, com reforço financeiro "na rúbrica dos aceiros", mais horas de motoniveladora e limpeza de bermas intensificada, para prevenir problemas ao longo do ano.
A resposta estende-se a todo o território, com intervenções na Lagoa da Palha, investimentos no Rio Frio e melhorias de mobilidade em Olhos de Água.
O critério é assumido: "É aquilo que mais faz falta às pessoas". Nas zonas rurais, isso traduz-se em manutenção contínua.
"Essas rubricas vão ter de estar sempre carregadas, ponto final".
O objetivo político é também reduzir desigualdades internas. João Estróia Vieira reconhece a divisão sentida entre norte e sul e quer atenuá-la com mais presença e ação no terreno.
Um Pinhal Novo antes e depois do Mercado Caramelo
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| Mercado Caramelo veio enraizar a cultura do Pinhal Novo |
Como sublinha o presidente da Junta de Freguesia, trata-se de uma terra que "cresceu da força da comunidade", onde a dinâmica cultural nasce muitas vezes de baixo para cima, enraizada nas pessoas, nas coletividades e nas tradições.
Essa identidade reflete-se num tecido associativo vivo e interventivo, que não funciona apenas como complemento, mas como pilar central da vida local.
A cultura, aqui, não é apenas programação - é participação.
E isso percebe-se na forma como as tradições continuam a ser valorizadas e reinventadas. O exemplo mais evidente é o Mercado Caramelo, que, nas palavras de João Estróia Vieira, "teve um grande papel nesse aspeto", ao mesmo tempo que "relembra de onde viemos, quais são as nossas origens humildes" e afirma o território como polo de atração.
Há, portanto, um equilíbrio intencional entre memória e projeção. A freguesia cresce, atrai população e transforma-se, mas procura não perder o seu eixo identitário.
Como refere o presidente da Junta de Freguesia: "É nesse equilíbrio que reside a grande diferença".
Uma capacidade de crescer sem cortar com as raízes, de modernizar sem descaracterizar.
Estróia quer antiga sede do Pinhalnovense ao serviço da cultura
Na leitura de João Estróia Vieira, o paradoxo cultural do Pinhal Novo é evidente: há criação, há dinamismo, há comunidade. O que falta é espaço para tudo isso acontecer com escala.
"O Pinhal Novo tem uma riqueza cultural brutal, isso ninguém nos tira. Temos grupos de teatro, bandas filarmónicas, grupos musicais, orquestras de guitarras, ranchos folclóricos, associações juvenis sempre a organizar eventos. Há uma atividade constante, quer no centro da vila quer nos arredores. O problema não é falta de cultura é falta de condições para a mostrar", afirma.
O diagnóstico é claro.
"Nós já devíamos ter um espaço cultural diferenciado. Não é uma ambição, é uma necessidade".
Hoje, a resposta institucional concentra-se essencialmente no auditório da biblioteca. Mas isso, diz, é insuficiente. "O auditório Rui Guerreiro resolve muita coisa, mas não resolve tudo".
Se quisermos um concerto mais intimista, com outro ambiente, ou uma exposição de pintura ou fotografia com alguma dimensão, explica, as opções tornam-se limitadas.
"Acabamos por cair sempre no foyer da biblioteca e isso torna-se curto".
A alternativa, admite, tem sido improvisada. "Dependemos muitas vezes da boa vontade de privados que cedem espaços. E isso não pode ser a base da política cultural de uma freguesia com esta dimensão e esta dinâmica".
É nesse contexto que surge uma ideia concreta, quase como símbolo de oportunidade perdida. "A antiga sede do Pinhalnovense podia - e devia - ser um espaço cultural diferenciador".
Um sítio com identidade, com memória, que desse resposta àquilo que hoje não existe.
Associações: a engrenagem invisível da culturaNa leitura de João Estróia Vieira, o paradoxo cultural do Pinhal Novo é evidente: há criação, há dinamismo, há comunidade. O que falta é espaço para tudo isso acontecer com escala.
"O Pinhal Novo tem uma riqueza cultural brutal, isso ninguém nos tira. Temos grupos de teatro, bandas filarmónicas, grupos musicais, orquestras de guitarras, ranchos folclóricos, associações juvenis sempre a organizar eventos. Há uma atividade constante, quer no centro da vila quer nos arredores. O problema não é falta de cultura é falta de condições para a mostrar", afirma.
O diagnóstico é claro.
"Nós já devíamos ter um espaço cultural diferenciado. Não é uma ambição, é uma necessidade".
Hoje, a resposta institucional concentra-se essencialmente no auditório da biblioteca. Mas isso, diz, é insuficiente. "O auditório Rui Guerreiro resolve muita coisa, mas não resolve tudo".
Se quisermos um concerto mais intimista, com outro ambiente, ou uma exposição de pintura ou fotografia com alguma dimensão, explica, as opções tornam-se limitadas.
"Acabamos por cair sempre no foyer da biblioteca e isso torna-se curto".
A alternativa, admite, tem sido improvisada. "Dependemos muitas vezes da boa vontade de privados que cedem espaços. E isso não pode ser a base da política cultural de uma freguesia com esta dimensão e esta dinâmica".
É nesse contexto que surge uma ideia concreta, quase como símbolo de oportunidade perdida. "A antiga sede do Pinhalnovense podia - e devia - ser um espaço cultural diferenciador".
Um sítio com identidade, com memória, que desse resposta àquilo que hoje não existe.
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| Autarca quer edifício do Pinhalnovense ao serviço da cultura |
"Seria mentira dizer outra coisa: a força motriz do Pinhal Novo têm sido as associações. Foram elas que criaram os eventos, que sustentaram as festas, que deram identidade cultural à vila".
Mais do que complemento, são estrutura: "Tudo o que tem grande relevância no Pinhal Novo nasceu da comunidade. A Junta muitas vezes funciona como moderador, como facilitador, como esse 'ator sombra' que ajuda, mas não substitui".
O objetivo, agora, é dar um passo seguinte e menos visível, mas estratégico: "Queremos reforçar o trabalho em rede. E isso não é um conceito abstrato. É fazer com que as associações se alimentem umas às outras".
Explica com exemplos concretos: "Se uma associação conhece uma criança que quer praticar desporto, tem de saber encaminhá-la para um clube. Se quer aprender música, há vários sítios onde isso pode acontecer. O que falta, muitas vezes, é essa ligação".
E é aí que a Junta quer intervir: "Podemos ser esse ponto de ligação, esse organizador, às vezes até esse 'lembrete' de que há outras associações, outras realidades, outras necessidades. É criar uma rede mais consciente de si própria".
Festas populares: uma mudança que testa a identidade
É também no plano simbólico que se joga parte desta transformação. A mudança das festas para o recinto do mercado mensal não é apenas logística: é cultural.
João Estróia Vieira assume o risco: "A decisão foi da Associação de Festas, mas eu apoiei e até partilhava essa visão de experimentar um novo espaço".
A lógica é pragmática: "É um espaço mais concentrado, com menos custos e muito mais fácil de gerir. Em termos de segurança, a diferença é enorme. É completamente diferente controlar cinco ou seis focos espalhados pela vila ou ter quatro ou cinco entradas num espaço delimitado".
Mas há um preço e esse é assumido sem rodeios: "As festas vão sempre perder um bocadinho da identidade. Porque havia aquela imagem de circular pela vila, de estar debaixo das varandas, com vários pontos de encontro. Isso perde-se".
A mudança é, no fundo, também uma experiência: "Vamos testar. Se correr bem, cria-se uma nova identidade. Se correr mal, reavaliamos. Não há dogmas aqui".
É também no plano simbólico que se joga parte desta transformação. A mudança das festas para o recinto do mercado mensal não é apenas logística: é cultural.
João Estróia Vieira assume o risco: "A decisão foi da Associação de Festas, mas eu apoiei e até partilhava essa visão de experimentar um novo espaço".
A lógica é pragmática: "É um espaço mais concentrado, com menos custos e muito mais fácil de gerir. Em termos de segurança, a diferença é enorme. É completamente diferente controlar cinco ou seis focos espalhados pela vila ou ter quatro ou cinco entradas num espaço delimitado".
Mas há um preço e esse é assumido sem rodeios: "As festas vão sempre perder um bocadinho da identidade. Porque havia aquela imagem de circular pela vila, de estar debaixo das varandas, com vários pontos de encontro. Isso perde-se".
A mudança é, no fundo, também uma experiência: "Vamos testar. Se correr bem, cria-se uma nova identidade. Se correr mal, reavaliamos. Não há dogmas aqui".
O mercado como futuro polo cultural
Por trás da decisão, há também uma visão mais ampla para o próprio recinto do mercado mensal.
"Gostava que aquele espaço se tornasse um polo cultural permanente. Porque, na verdade, a Junta não tem grande património. Temos os edifícios [sede da junta e os cemitérios] e temos aquele recinto e temos de o saber aproveitar", explica João Estróia Vieira.
A ambição não é apenas cultural, é também financeira: "Se conseguirmos atrair eventos para ali, isso significa também receitas para a Junta. E isso é fundamental para a sustentabilidade da freguesia".
Por trás da decisão, há também uma visão mais ampla para o próprio recinto do mercado mensal.
"Gostava que aquele espaço se tornasse um polo cultural permanente. Porque, na verdade, a Junta não tem grande património. Temos os edifícios [sede da junta e os cemitérios] e temos aquele recinto e temos de o saber aproveitar", explica João Estróia Vieira.
A ambição não é apenas cultural, é também financeira: "Se conseguirmos atrair eventos para ali, isso significa também receitas para a Junta. E isso é fundamental para a sustentabilidade da freguesia".
O que distingue o Pinhal Novo das outras freguesias?
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| Crescimento da freguesia exige novas respostas estruturais |
"Podia dar muitas respostas técnicas, falar de localização, de crescimento, de acessibilidades… mas a verdade é mais simples: é a forma como as pessoas vivem isto. Aqui há um sentido de comunidade muito forte, uma identidade construída pelas associações, pela cultura, pelas pessoas. Para mim, é isso que torna o Pinhal Novo único e, sim, o mais bonito".
Não é apenas uma afirmação - é uma declaração de pertença. E talvez seja essa a melhor tradução do espírito de Abril: um território onde a liberdade não é abstrata, mas vivida, todos os dias, na escala humana da freguesia.
É também essa lógica que enquadra a ambição de elevação a cidade. Um objetivo que recusa ser apenas simbólico.
"Faz sentido pensar no Pinhal Novo como cidade, mas não apenas como uma questão de nome. Não pode ser só formalização. É preciso que essa passagem venha acompanhada de condições reais: um serviço de finanças, mais investimento em mobilidade, mais atenção do Estado central, melhores infraestruturas de saúde e a concretização de projetos estruturais como a variante à Estrada Nacional 252".
A conclusão é clara: o futuro do Pinhal Novo não se decide apenas no crescimento, mas na capacidade de o sustentar.
No fundo, a estratégia desenha-se entre necessidade e oportunidade: menos espaço do que o desejado, mas uma comunidade suficientemente ativa para o reinventar.
"Esta vila fez-se da junção das forças das pessoas. E é assim que tem de continuar", conclui.
"Faz sentido pensar no Pinhal Novo como cidade, mas não apenas como uma questão de nome. Não pode ser só formalização. É preciso que essa passagem venha acompanhada de condições reais: um serviço de finanças, mais investimento em mobilidade, mais atenção do Estado central, melhores infraestruturas de saúde e a concretização de projetos estruturais como a variante à Estrada Nacional 252".
A conclusão é clara: o futuro do Pinhal Novo não se decide apenas no crescimento, mas na capacidade de o sustentar.
No fundo, a estratégia desenha-se entre necessidade e oportunidade: menos espaço do que o desejado, mas uma comunidade suficientemente ativa para o reinventar.
"Esta vila fez-se da junção das forças das pessoas. E é assim que tem de continuar", conclui.






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