Almada corta apoio e deixa família com renda impossível à porta

Despejo invisível: família de Penajoia sem solução após fim do apoio municipal

A demolição de uma habitação considerada insegura no bairro de Penajoia, em Almada, não destruiu apenas paredes. Abriu um período de instabilidade profunda na vida de uma família que, após dias de apoio de emergência, ficou agora sozinha perante uma renda que não consegue pagar. Esta segunda-feira marcou o fim da ajuda financeira assegurada pela Câmara Municipal de Almada para alojamento temporário, colocando o agregado num limbo habitacional.
Um quarto tornou-se casa provisória para uma família até 5 de Janeiro

Sem alternativa imediata, a família enfrenta a possibilidade de ter de abandonar o quarto onde vive desde meados de Dezembro, na Costa de Caparica. A permanência no espaço depende agora do pagamento mensal de 750 euros, acrescido de uma caução que está fora do alcance dos seus rendimentos.
Desde 19 de Dezembro, o casal e dois dos seus três filhos dormem e vivem num único quarto de uma pensão, com acesso a uma cozinha partilhada. O apoio municipal começou como uma resposta de 24 horas à urgência criada pela demolição da casa, mas foi sendo prolongado até 5 de Janeiro. Com esse prazo ultrapassado, a família passou a depender exclusivamente da sua capacidade financeira para continuar no alojamento.
Sidneida, mãe de três filhos, trabalha no setor das limpezas em unidades hoteleiras e recebe o salário mínimo nacional. O marido, pedreiro, aufere o mesmo valor. Apesar de ambos manterem emprego, a procura por uma casa no mercado de arrendamento revelou-se infrutífera. “A partir de hoje só ficamos se pagarmos. Pediram-nos também uma caução que não temos”, contou.
Os dois filhos mais novos, de cinco e 14 anos, continuam a frequentar a escola enquanto partilham o espaço exíguo com os pais. O filho mais velho, de 18 anos, estuda no Porto e apenas se junta à família durante as férias, mantendo uma ligação intermitente a um núcleo familiar cada vez mais fragilizado.

Fim da emergência, critérios mais duros
A Câmara Municipal de Almada confirmou o término do apoio, sublinhando que a intervenção municipal estava limitada à fase de urgência. Segundo fonte da autarquia, os rendimentos do agregado familiar deixaram de justificar a continuidade da ajuda. “A nossa intervenção estava ligada à fase de urgência. A família tem rendimentos e já foi apoiada com um valor significativo no âmbito da emergência social”, explicou.
O acompanhamento do caso é assegurado pelo Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social de Almada, através da Santa Casa da Misericórdia de Almada. De acordo com a autarquia, chegou a ser equacionada uma solução habitacional concreta, que acabou por não avançar por ausência de um fiador que cumprisse os critérios exigidos.

Entre promessas e alertas sociais
Apesar do corte do apoio direto, a câmara garante que continua a procurar uma resposta. Entre as hipóteses em cima da mesa está o apoio ao pagamento da caução ou da primeira renda, bem como a preparação de candidaturas aos programas 1.º Direito, de âmbito nacional, e Habit’Almada, de âmbito municipal.
A situação tornou-se pública após a intervenção do movimento Vida Justa e da Associação de Moradores do Bairro de Penajoia, que alertaram para o risco social imediato enfrentado pela família. 
Em Dezembro, a presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, afirmou que o Governo iria agendar para Janeiro uma reunião com o objetivo de apresentar um plano para o bairro de Penajoia. O território, um aglomerado de génese ilegal localizado em terrenos do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, tem crescido nos últimos anos e continua a concentrar problemas estruturais que deixam dezenas de famílias à mercê de soluções temporárias.

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN 

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