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terça-feira, 10 de outubro de 2017

Falta de chuva afecta pesca em Setúbal

"Já devia ter vindo um vendaval"

A falta de chuva está a ter reflexos negativos na quantidade e na qualidade do peixe apanhado no mar e no rio Sado pela comunidade piscatória de Setúbal, que aguarda ansiosamente pela chegada dos "vendavais" de inverno. Mais de 80 por cento de Portugal continental encontrava-se em Setembro em seca severa, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, caracterizando-o de mês "extremamente quente". Neste período, o total de precipitação acumulado foi de 621,8 milímetros (70 por cento do normal), sendo o 9.º valor mais baixo desde 1931.
Pescadores estão preocupados com a falta de chuva 

"Já há uns anos que não há chuvas como havia. Antigamente chegava a haver oito dias de mau tempo, com vendavais, que eram os tempos do mar. Após os temporais aparecia peixe de todas as qualidades e toda a gente pescava. Agora não. O clima actual tem muita influência negativamente", conta Adelino Santos, 70 anos, que pesca no Sado há cerca de seis décadas.
O pescador afirma que as altas temperaturas e a ausência de chuva têm levado ao desenvolvimento de algas no rio, que impedem o lançamento das redes de pesca. Além disso, diz, tem-se agravado o problema do assoreamento do Sado, que, em zonas onde já teve 10 a 12 metros de água, tem actualmente dois, três metros de profundidade, impossibilitando a navegação.
"Lembra-me que dantes a malta só apanhava o que queria e aquilo que queria. Agora não é bem assim. A malta tem de recorrer ao que houver e eu só ando cá porque a reforma não dá para estar a olhar para o lado", lamenta Adelino Santos.
A comunidade piscatória, com cerca de 230 embarcações, dedica-se à pesca no rio Sado, no mar ou em ambos.

Se não chover não dá peixe nenhum
Os barcos que zarparam durante a noite para a faina vão chegando na manhã seguinte ao porto de pesca de Setúbal, uns atrás dos outros. O peixe - linguados, robalos, fataças, douradas, raias, fanecas, entre outros - é dividido e transportado em caixas de plástico para o interior da lota para ser pesado. Durante a tarde é feito o leilão.
"Como tem chovido pouco, há pouco peixe. Chovendo muito é bom para o mar, é bom para a terra e traz muita coisa que está em terra para o mar. E isso também é alimento para o peixe. Se não chover, que é o que está a acontecer, não dá peixe nenhum", lamenta Alberto Lopes.
Com 57 anos, o pescador de mar desde os 14 explica, referindo-se ao peixe que se encontra no estuário do Sado, em zonas mais secas, que quando chove muito é "a própria água" que leva esse peixe para o mar, o que não tem acontecido nos últimos meses, devido à seca. Assim, diz, os peixes "acabam por não ter alimento" para se desenvolverem.
Enquanto os barcos chegam ao cais - alguns com música a bordo -, descarregam e dão lugar a outras embarcações. As gaivotas, às dezenas, aproveitam o banquete e comem o peixe que cai ou é deitado à água turva, povoada de tainhas. Numa das laterais do porto, há pescadores em terra a remendar as redes para as próximas fainas.

Menos quantidade e qualidade no peixe apanhado
Seca também afecta qualidade do peixe no mar de Setúbal 
Miguel Sena, 39 anos, chega de mais uma ida ao mar. Pescador desde que acompanhava os avós, também considera que a ausência de chuva tem efeitos negativos na pesca.
"A chuva é o meio que existe para obrigar o peixe a sair do estuário [do rio Sado] e a ir para águas oceânicas. O peixe acaba por não sair daqui e mantém-se nesta água, que é menos limpa do que a água oceânica. A chuva acaba por ajudar a fazer essa mesma limpeza e o peixe também faz esse ciclo: sai para o oceano e regressa muitas vezes para a desova. E esse ciclo assim não funciona porque o peixe acaba por se manter aqui dentro", explica.
O pescador relata que nos últimos meses tem notado menos quantidade e qualidade no peixe apanhado, apesar de reconhecer que o verão não é a época do ano onde há mais capturas.
"Quando o inverno vem e começam as chuvas, o mau tempo, o mar começa a agitar, é quando fazemos maiores capturas. Agora nesta altura é mais complicado. Mas já devia ter vindo um vendaval, como costumámos dizer, para mexer o mar. É preciso. Isso não está acontecer e sente-se nas pescas: na quantidade e na qualidade do peixe", assegura Miguel Sena.
Opinião diferente tem Paulo Cardoso, 45 anos, pescador desde os 14 anos e que, até à data, "não nota diferenças" no momento de recolher as redes e fazer as contas ao peixe apanhado.
"A quantidade é igual. As pescas são ciclos. Este ano são melhores, para o ano será pior, para o outro ano poderá ser melhor outra vez. E os antigos já se queixavam de grandes crises de falta de peixe e depois volta a aparecer outra vez", sublinha Paulo Cardoso.
Depois de mais um dia de faina, é quase meio-dia, hora de almoço para os pescadores. Daqui a umas horas regressam ao mar.

Agência de Notícias com Lusa

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