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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Cozinha comunitária na Costa de Caparica premiada

A cozinha que mudou a vida das gentes da Terra da Costa 

Lotes de terrenos com couves plantadas, cabras à solta, barracas com tetos em chapa de zinco e telhas presas por garrafões de cinco litros para o vento não as levar. É assim o bairro de barracas Terras da Costa, com origem nos anos 70, às portas da cidade da Costa de Caparica. Uma favela urbana de populações africanas e ciganas que estava esquecida até surgir, no seu coração, a cozinha comunitária concebida pelo arquiteto Tiago Saraiva, do ateliermob. O espaço foi criado em parceria com o coletivo Warehouse e contou com o financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian e da Casa Vapor. Este é um dos edifícios do ano, premiado pelo site de arquitetura mais famoso do mundo. 
Cozinha comunitária ganha prémio Building of the Year 2016


Três projetos dos sete portugueses que se encontravam entre os finalistas do Prémio Edifício do Ano 2016, promovido pela plataforma Archdaily, dedicada à arquitetura, são os vencedores nas categorias de hospitalidade, arquitetura pública e remodelação. A Cozinha Comunitária Terras da Costa, na Costa de Caparica, da responsabilidade do ateliermob e do Coletivo Warehouse, venceu a categoria de arquitetura pública. 
Nesta sétima edição do prestigiado prémio internacional, atribuído por votação do público desta plataforma especializada em arquitetura, estiveram em análise mais de 3 mil projetos de todo o mundo. Depois de uma primeira votação foram selecionados 70 projetos, em 14 categorias diferentes, contando-se sete projetos portugueses entre os finalistas.
Na votação final, que envolveu mais de 55 mil pessoas de todo o mundo, foram escolhidos os premiados, entre os quais os três portugueses.
No site do ateliermob, vencedor do Prémio Edifício Público de 2016, pode ler-se: “A Cozinha Comunitária foi eleita Edifício Público de 2016. Mais do que o reconhecimento do ateliermob, do Coletivo Warehouse, de todas as pessoas que se foram juntando na construção desta cozinha, da comunidade ou do município, cremos que o que foi distinguido foi a capacidade que a arquitetura tem de melhorar a vida das pessoas. Mas este trabalho só ficará concluído quando a cozinha puder ser desmontada e as suas torneiras deixarem de ser necessárias para abastecer aquela população. Este trabalho só será bem-sucedido quando as mais de 300 pessoas que habitam nas Terras da Costa estiverem a viver numa habitação digna, como a Constituição da República prevê, com água, esgotos, luz e tudo a que têm direito”.
No dia  em que se soube que o projeto da cozinha comunitária estava nomeado entre os cinco finalistas da categoria Arquitetura Pública, Tiago Mota Saraiva, do ateliermob disse que “nos anos em que a iniciativa pública não existiu temos uma forte presença”, disse ao jornal Diário de Notícias, sublinhando o facto de estarem três portugueses entre os finalistas. 
Tiago Mota Saraiva destacou o facto de a cozinha já estar pronta, mas ainda haver um projeto de realojamento para fazer. O bairro onde foi construída, no concelho de Almada, tem cerca de 300 pessoas, entre campos agrícolas, e foi ocupado há 40 anos. Em 2012 não havia água – iam buscá-la a um quilómetro -, e era essa uma das principais reivindicações desta comunidade. O processo de envolvimento da população na planificação e construção da cozinha comunitária é uma das principais qualidades do edifício. Ele resulta de um processo participado em que a arquitetura se cruza com a cidadania e o dar poder às pessoas.
Com o financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian, infraestruturas da Câmara de Almada e a parceria com o Coletivo Warehouse, o projeto ficou pronto em Dezembro de 2014.

A cozinha do povo e das gentes 
 "Neste momento está a servir de armazém para guardar 40 a 50 sacos de roupas que foram doadas para quem precisa", explica aos jornalistas do Diário de Notícias, Raúl Marques, presidente da associação de moradores, justificando assim a impossibilidade de abrir as portas para a mostrar.
Com o pátio em frente aberto, mesas e bancos de madeira, janelas viradas para as couves, o espaço da cozinha comunitária, aberta em 2014, tem sido o centro social do bairro . "Temos feito aqui festas de aniversário e outros eventos, grelhados no Verão", conta Miranda, português de 38 anos filho de cabo-verdianos da ilha de São Vicente. "Quando há uma festa para todos, toda a gente come", diz o antigo feirante Raúl Marques, que morava na parte de baixo do bairro e raramente vinha à parte de cima. "Aqui não se distingue pretos, ciganos ou brancos, todos se dão."
Dezenas de moradores estão agora em processo de realojamento num bairro social do Monte de Caparica. À falta de melhor armazém, a cozinha tem servido no Inverno para guardar os trapos que quem precisa pode levar.
Por causa da cozinha, a água canalizada chegou ao bairro. A visibilidade que o projeto trouxe impulsionou também a Câmara de Almada a avançar com o realojamento, por fases, dos 300 moradores de Terras da Costa. Até ao final do mês dezenas de famílias estão a ir para 37 casas no Monte da Caparica. Num futuro que a autarquia desejava próximo - mas que Raúl Marques acredita estar ainda distante - será construído um bairro social para todos, a poucas centenas de metros do Terras da Costa, junto às Torres das Argolas, na cidade da Costa de Caparica.
Na parte de baixo do bairro, onde muitos moradores já estão de bagagens aviadas para o Monte de Caparica, o patriarca Rául Marques convida-nos a entrar na casa abarracada para onde foi viver quando se casou com a mulher Lídia, o número 1 da Rua do Juncal. "Comprei uma cocheira aqui por 50 contos (250 euros) há 32 anos". Nesse terreno fez a habitação onde a família foi crescendo até chegar aos seis filhos , 26 netos e oito bisnetos.
O bairro Terras das Costas está cheio de histórias assim. Alguns dos moradores já nasceram ali. Outros escolheram ali o seu lugar.

Júri avaliou três mil propostas 
Fundada em 2008, a Archdaily é uma plataforma online de informação e divulgação da arquitetura, com base em Nova Iorque, que contabiliza 350 mil visitas diárias e atribui anualmente este prémio a projetos que 
se destacam pela inovação espacial, social, material e técnica.
Além da Cozinha Comunitária no Concelho de Almada, a revista premiou outros dois projetos portugueses. O Cella Bar, nos Açores, do ateliê FCC Arquitetura e Paulo Lobo, ganhou a categoria de hospitalidade e a Casa de Guimarães, de Elisabete de Oliveira Saldanha, saiu vitoriosa na categoria de remodelação.
O júri avaliou cerca de três mil propostas, de 18 mil arquitetos espalhados por todo o mundo. O denominador comum destes projetos, dizem, é que “capturam a capacidade de operar uma mudança positiva no ambiente”. A votação dos vencedores do prémio Edifício do Ano 2016 decorreu no início de Fevereiro.

Agência de Notícias

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